
Sob o olhar da sociologia e da antropologia, o governo entende que o brasileiro se guia pela “ética do afeto”. Aliados estratégicos já mapearam que existe uma tendência instintiva no povo em proteger quem parece ser o elo mais fraco (o underdog) diante de um sistema que o sabota.
A intenção agora é clara: transformar cada bloqueio do Congresso Nacional em uma peça de marketing político.
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A rejeição de Jorge Messias é o exemplo central. Messias, um nome de perfil técnico e evangélico, contava com a simpatia inclusive de alas do Supremo Tribunal Federal (STF). Sua derrubada será usada para mostrar que o Congresso não barra apenas o governo, mas nomes qualificados que buscam o equilíbrio institucional.
A gestão da traição como ferramenta política
A narrativa que está sendo desenhada nos bastidores foca em um conceito poderoso: a “traição do sistema”.
O plano é fazer a população perceber que o Congresso age por interesses próprios, enquanto o Executivo tenta cumprir suas promessas. É aqui que surge o uso estratégico do ditado: “Todos gostam da traição, mas ninguém quer o traidor”.
Ao rotular o Legislativo como o “traidor” das expectativas do povo, o governo busca se posicionar como o único lado que, embora atacado, permanece fiel ao brasileiro comum. Na moralidade das ruas, o traidor do país é a figura que o Planalto quer que o Congresso encarne.
A esquiva estratégica: o gator dosimetria
O exemplo mais recente desse xadrez é o silêncio proposital de Lula sobre o projeto da dosimetria.
Ao deixar o prazo de 48 horas expirar para que a tarefa da promulgação recaia sobre o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, o governo faz um movimento calculado.
Lula sabe que o país está rachado: uma metade clama por anistia, enquanto a outra exige rigor. Ao se recusar a assinar, o presidente se esquiva de uma decisão impopular para parte do país e reforça a tese de que o Congresso está forçando uma pauta que ele não apoia.
É a “vitimização” transformada em omissão estratégica para manter o discurso de mãos atadas.
O jovem e o sentimento de “futuro cancelado”
Essa estratégia mira diretamente o público jovem, movido pela indignação digital.
Aliados do governo acreditam que, ao mostrar o Congresso como o entrave para pautas de desenvolvimento, podem canalizar a frustração dessa geração. O objetivo é fazer o jovem sentir que seu futuro está sendo “cancelado” por parlamentares que jogam contra o progresso em benefício de pautas corporativistas.
O fator religioso: a perseguição a um “irmão”
A rejeição de um nome evangélico querido por seus pares e respeitado por magistrados também evangélicos no Judiciário será o combustível para tentar furar a bolha religiosa.
A narrativa que deve ganhar as redes sociais questionará: “Por que o sistema tem tanto medo de um evangélico preparado no poder?”.
Essa tática busca transformar um veto político em uma percepção de perseguição identitária, tentando reconectar o governo a uma base que preza pela representatividade.
A pena que vira voto: o mártir estratégico
A antropologia das emoções mostra que o ser humano é empático com a dor do perseguido.
Se o governo conseguir consolidar a imagem de um presidente impedido de agir, o sentimento de pena pode se transformar em capital político. O plano do Planalto é simples: fazer o povo acreditar que o que Brasília chama de “vitória do Congresso” é, na verdade, uma crueldade contra o cidadão.
No fim, a ideia é que o Legislativo acabe entregando, involuntariamente, o papel do líder que sofre para tentar proteger o país.
Resta saber: será que este plano vai dar certo? Vamos esperar para ver.

*Miguel Daoud é comentarista de Economia e Política do Canal Rural
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