A equipe multidisciplinar do Laboratório de Ecologia e Conservação da Universidade Federal do Paraná (LEC-UFPR) resgatou e reabilitou um filhote de elefante-marinho-do-sul (Mirounga leonina), encontrado na praia de Matinhos (PR).
Em janeiro, a equipe o devolveu ao oceano, em área próxima ao Parque Nacional Marinho da Ilha de Currais. Após 25 dias de cuidados intensivos no Centro de Reabilitação, Despetrolização e Análise da Saúde da Fauna Marinha (CReD-UFPR), o animal retomou sua rota migratória.
O monitoramento por transmissor satelital indica que o filhote já se encontra na Argentina, a menos de 800 quilômetros da Península Valdez, uma das principais áreas de ocorrência e reprodução da espécie.
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Resgate inédito
A Polícia Militar do Paraná, durante monitoramento da orla, encontrou o animal no dia 26 de dezembro. Seguindo o Protocolo de Atendimento a Encalhes de Animais Marinhos do Paraná (Prae), a equipe do PMP-BS/LEC-UFPR foi acionada e realizou o atendimento imediato.
De acordo com a coordenadora do PMP-BS/LEC-UFPR, professora Camila Domit, o caso chamou atenção desde o início por se tratar de um filhote.
“O registro de um filhote de elefante-marinho no Paraná é algo inédito e indica uma situação diferenciada, que exige resposta rápida e avaliação criteriosa, tanto sobre o estado do indivíduo quanto sobre os fatores ambientais que podem estar influenciando esses deslocamentos”, explica Camila.
A importância da cooperação internacional
Durante o processo migratório, cerca de 15 dias após a soltura, o elefante-marinho foi avistado em La Coronilla, no Uruguai. O registro permitiu que parceiros da ONG Karumbé, referência na conservação marinha no país, acompanhassem o animal.
Em menos de um mês, o animal percorreu cerca de 1.500 km.
Desse modo, a articulação entre equipes do Brasil, Uruguai e Argentina reforça o caráter internacional da conservação de espécies migratórias.
“Esse caso demonstra que a conservação não tem fronteiras. Estamos falando de uma espécie subantártica que cruzou diferentes países em poucas semanas. A cooperação entre instituições é fundamental para garantir proteção ao longo de toda a rota migratória”, reforça Camila.
Transmissor satelital
Além disso, antes da soltura, o filhote passou por coleta de amostras biológicas, marcação por microchip e, de forma inédita no estado, pela instalação de um transmissor satelital, permitindo sua identificação e o acompanhamento diário de sua trajetória.
A Universidade do Vale do Itajaí (Univali) instalou o transmissor, no âmbito das atividades do PMP-BS, projeto do qual a instituição é responsável técnica pela Área SC/PR. O equipamento é leve e seguro, sendo projetado para se desprender naturalmente ao longo do tempo, sem causar danos ao animal.
“Essa possibilidade de monitorar em tempo real tanto o deslocamento como o comportamento do animal no oceano, nos fornece dados sobre como ele usa o ambiente”, explica o biólogo André S. Barreto, coordenador geral do PMP-BS Área SC/PR.
Ele também destaca que com os dados de mergulho e da temperatura da água de onde o elefante-marinho passou, é possível analisar como esses animais escolhem os locais para onde vão.
Conservação de espécies migratórias
A jornada desse elefante-marinho reforça um aspecto central da conservação: espécies migratórias dependem de ecossistemas saudáveis, políticas integradas ao longo de milhares de quilômetros e coordenação entre países.
Nesse sentido, o caso do elefante-marinho ilustra, na prática, a importância desse debate.
“Esse filhote saiu do Paraná, cruzou o sul do Brasil, passou pelo Uruguai e agora está na Argentina, aproximando-se de sua área natural de ocorrência. Casos como esse mostram que conservação precisa de ação local, mas ser pensada em escala global”, afirma Camila.
Caso bem-sucedido
A trajetória do filhote — de Matinhos à costa argentina — representa um caso bem-sucedido de reabilitação, mas também um exemplo concreto de como o desenvolvimento da ciência, estratégias de monitoramento ambiental sistemáticas e cooperação são fundamentais para a conservação de espécies migratórias em um cenário de mudanças ambientais globais.
“Cada etapa dessa história reforça a importância do monitoramento contínuo e das ações colaborativas. Agora, seguimos acompanhando os próximos capítulos dessa jornada, que começou no Paraná e segue rumo às áreas ao sul e de uso frequente pela espécie no Atlântico Sul”, conclui Camila.
*Sob supervisão de Hildeberto Jr.
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