Conflito entre EUA, Israel e Irã não fica lá: vira custo e inflação aqui

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Foto: Pixabay

A escalada entre Estados Unidos, Israel e Irã vai além de disputa territorial ou retórica diplomática. É mais um capítulo de decisões tomadas no calor do momento, num mundo onde energia, frete, câmbio, inflação, juros e alimentos estão profundamente interligados.

Quando o Oriente Médio entra em crise, o efeito não se limita à região. Ele percorre rotas comerciais, pressiona mercados globais e, cedo ou tarde, bate à nossa porta: no preço do diesel, no valor do fertilizante, na prestação do crédito.

O Irã é uma ditadura que, há anos, busca ampliar sua capacidade nuclear — o que naturalmente eleva a percepção de risco na região. Esse movimento não contribui para estabilizar nada. Mas responder com escaladas sucessivas também raramente traz segurança duradoura. Pelo contrário: aumenta o medo, radicaliza posições e transforma tensão em rotina permanente.

Israel, por sua vez, vive sob constante percepção de ameaça à soberania. Num ambiente marcado por rivalidades históricas e tensões religiosas profundas, cada novo movimento militar reforça a sensação de que o conflito pode se perpetuar indefinidamente. No campo econômico, a consequência é previsível.

Incerteza maior gera prêmio de risco mais alto. Energia e logística ficam pressionadas. As expectativas de inflação sobem. E, quando a inflação resiste, os juros demoram mais para cair. Juros altos por mais tempo travam investimentos, reduzem a produtividade e dificultam qualquer planejamento de médio prazo. Para o agro brasileiro, isso não é teoria. Vira custo real.

Com energia mais cara e rotas mais voláteis, sobem diesel, frete, armazenagem e seguro. O câmbio oscila e afeta fertilizantes, defensivos, máquinas e peças importadas. Se a inflação se mantém pressionada, o crédito encarece e fica mais seletivo. O capital de giro aperta. A conta de juros alonga. A margem encolhe.

É exatamente nesses momentos que a disciplina deixa de ser virtude e vira necessidade absoluta: acertar o timing de compra, negociar frete, gerir estoque com rigor, usar hedge quando possível. Não é luxo. É sobrevivência.

No fim das contas, a guerra moderna não gera prosperidade. Ela funciona como um imposto invisível: destrói capital, corrói confiança e substitui investimento por manchete. Num mundo tão interligado quanto o de hoje, cada dia de escalada encarece o básico, aperta o crédito e desorganiza cadeias produtivas.

Não há vencedores reais nesse processo. Há apenas mais um ciclo de custo elevado, insegurança prolongada e crescimento comprometido.

É o labirinto da mediocridade: todos pagam a conta e ninguém sai melhor do outro lado.

Miguel Daoud

*Miguel Daoud é comentarista de Economia e Política do Canal Rural





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