A Raízen sempre simbolizou ambição. Joint venture da Cosan com a Shell, liderou o movimento da bioenergia, apostou no etanol de segunda geração e expandiu como poucas no setor. Mas 2026 mostrou que crescimento financiado tem prazo de validade quando o juro sobe.
Com dívida líquida acima de R$ 55 bilhões e perda do grau de investimento, a empresa entrou em modo ajuste. E aqui está o ponto central: não foi falta de visão. Foi excesso de velocidade num ambiente que mudou no meio da curva.
Eu sempre digo, juros altos não perdoam balanço esticado. Eles encurtam o tempo, encarecem o capital e expõem qualquer projeto cujo retorno demore a aparecer.
A tesoura que se abriu
De um lado, a dívida cresceu rapidamente para financiar usinas, especialmente o E2G. De outro, a geração de caixa não acompanhou no mesmo ritmo.
Quando o custo financeiro sobe e o EBITDA não reage, a conta não fecha. E o mercado não espera.
O etanol de segunda geração continua sendo uma aposta estratégica correta. O problema não é a tecnologia. É o timing combinado com crédito caro, volatilidade de preços e um cenário global de juros elevados.
Em ciclos assim, a dívida vira protagonista.
O retorno ao essencial
A reação é clara: vender ativos não estratégicos, reduzir CAPEX ( despesa de capital) e negociar alongamento com credores. Não é expansão. É preservação.
E aqui entra uma reflexão maior, que vale para todo o agro e para a indústria de energia: logística cara, juros elevados e oscilações de mercado formam um tripé de risco permanente no Brasil. Quem ignora isso paga caro.
Oscilação de preço é normal em qualquer atividade. O que não pode ser normal é estruturar crescimento como se o dinheiro fosse eterno e barato.
O que está em jogo
A Raízen continua sendo uma potência operacional. O mercado de açúcar e etanol existe, é relevante e tem base estrutural sólida. Mas agora a prioridade é outra: desalavancar, gerar caixa, reconstruir confiança.
Crescer é importante. Sobreviver é essencial.
No fundo, o caso da Raízen reforça algo que venho repetindo há anos: em ambiente de juros altos, disciplina financeira não é virtude, é condição de sobrevivência.
O gigante não caiu. Mas precisa reaprender a caminhar antes de voltar a correr.

*Miguel Daoud é comentarista de Economia e Política do Canal Rural
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