
O primeiro turno terminou com Flávio Bolsonaro à frente de Lula e uma mudança importante nas forças do Congresso. Com a apuração praticamente concluída na noite de domingo, Flávio tinha 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% do presidente. A decisão ficou para 25 de outubro.
Na minha avaliação, o resultado revela uma insatisfação relevante com o governo. Lula disputou com a força política da Presidência e terminou atrás do principal adversário. O custo de vida, o endividamento e a insegurança ajudam a explicar esse desgaste.
Vejo também um componente institucional. O cancelamento do debate da Globo, após decisões individuais no STF e no TSE alterarem regras horas antes, reforçou, a meu ver, a percepção de favorecimento a Lula em parte do eleitorado. Quanto isso pesou nos votos, o resultado sozinho não permite medir.
Um Congresso mais próximo da direita
O PL elegeu 19 senadores e, segundo a projeção da Agência Senado, deverá começar em 2027 com 28 das 81 cadeiras. Será a maior bancada da Casa, seguida pelo PT, com nove senadores, e pelo MDB, com oito. A previsão considera os mandatos que continuam e as substituições já previstas por suplentes, mas ainda pode sofrer alterações.
Na Câmara, a expectativa é que o PL também forme a maior bancada. A composição definitiva, porém, ainda precisa ser consolidada. Não cabe antecipar um número final de deputados nem tratar uma futura maioria governista como garantida.
Se Flávio vencer, essa força poderá ajudá-lo a eleger, mediante alianças, presidentes próximos ao seu governo nas duas Casas. Isso facilitaria a negociação das propostas e seu encaminhamento às votações.
Mas presidir as Casas não substitui os votos. Uma mudança na Constituição exige pelo menos 308 deputados e 49 senadores, em dois turnos em cada Casa. O PL precisará de outros partidos para aprovar reformas.
O campo pode ganhar mais espaço
A Frente Parlamentar da Agropecuária reúne deputados e senadores de diferentes partidos. Sua diretoria declarou apoio a Flávio antes do primeiro turno. Essa articulação amplia as possibilidades de apoio para além do PL, embora não signifique que todos os integrantes votem da mesma maneira
Para o produtor, o que importa é transformar essa representação em decisões. Renegociação de dívidas, crédito acessível, recursos para o seguro rural e segurança na aplicação do Código Florestal precisam ocupar espaço na agenda do próximo governo e do Congresso.
Na hipótese de vitória de Flávio, a aproximação entre Executivo e parlamentares ligados ao campo poderá facilitar essas medidas. Ainda será necessário negociar recursos e regras que funcionem para quem produz. Uma lei de renegociação pouco resolve se o produtor endividado não consegue acessá-la.
Se Lula vencer, a bancada ruralista continuará podendo atuar nas duas Casas. Com articulação e apoio de outros parlamentares, terá condições de pressionar por mudanças, negociar propostas com o governo e cobrar orçamento para executá-las. Essa força dependerá da composição final da Frente e da união em torno das demandas do setor.
Mais apoio, mais cobrança
O Brasil precisa melhorar a qualidade do gasto público, tornar a administração mais eficiente e dar segurança a quem investe. No campo, precisa enfrentar o endividamento e ampliar a proteção contra perdas de safra.
A eleição presidencial continua aberta. Mas, se Flávio vencer e construir uma maioria no Congresso, terá melhores condições para avançar nas reformas e será cobrado por isso.
Para o agronegócio, a cobrança vale em qualquer resultado: o apoio político precisa chegar ao produtor na forma de crédito, seguro e condições para continuar trabalhando.

*Miguel Daoud é comentarista de Economia e Política do Canal Rural
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