
Uma pesquisa da Universidade Federal do Ceará (UFC) utiliza a pele da tilápia como curativo para o tratamento de queimaduras. A tecnologia entra agora em uma nova etapa, após a universidade firmar acordo com uma empresa privada para a produção do curativo em escala industrial. A previsão é que metade da produção seja destinada à exportação, enquanto a outra metade deverá ser disponibilizada pelo Sistema Único de Saúde (SUS) para o tratamento de pacientes queimados no Brasil.
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A fábrica será instalada na cidade de Jaguaribara, no sertão do Ceará. O local é um ponto estratégico, pois o município é o maior produtor de tilápia do estado. Às margens do Açude Castanhão, Jaguaribara fica a apenas 130 quilômetros de Orós, segundo maior produtor cearense do peixe.
No mercado da piscicultura, o produtor brasileiro pode, sim, encontrar uma nova forma de comercializar um subproduto vindo da espécie. Porém, Francisco Medeiros, presidente da Peixe BR, faz ressalvas em relação ao real impacto financeiro dessa nova mercadoria: “O impacto disso sobre a produção e a comercialização de tilápia é muito pequeno, haja vista que a demanda nacional e internacional do produto nem se equipara ao que nós produzimos”, completou Francisco.
Apesar do baixo impacto no mercado, o presidente da Peixe BR destaca também a valorização da utilização dos produtos e subprodutos da tilápia, visto que a pele do peixe era comumente descartada. “A pele é um subproduto, ou seja, somente no Brasil hoje se abate mais de um bilhão de peixes por ano. Então, o impacto é positivo no sentido da utilidade desses subprodutos.”
Manoel Odorico de Moraes, professor, doutor e coordenador das pesquisas, que pediu para ser chamado apenas de Odorico, enfatizou a gratificação de ver um projeto de pesquisa se tornar disponível para todos. “Porque dizer que o nosso trabalho poderá um dia estar dentro de um hospital, dentro das farmácias, e que isso possa trazer benefício para as pessoas que estão usando… Sim, realmente é uma situação extremamente prazerosa.”
Valor científico
Com mais de 50 anos de estudos na UFC, o doutor conta a importância da pesquisa para tratar vítimas de queimaduras. Ele destaca que, dentre vários fatores positivos do novo tipo de intervenção na medicina, o efeito praticamente anestésico da pele de tilápia sobre a dor é o que mais impacta os pacientes. “Verificou-se que diminuiria mais de 70% da dor comparado com a sulfadiazina de prata, que é o tratamento mais comum utilizado nos hospitais atualmente”, disse o professor.

O curativo, além de ter efeito na diminuição das dores relacionadas às queimaduras, também torna o processo de tratamento mais prático. Enquanto o medicamento utilizado hoje em dia precisa ser trocado a cada dois dias, o novo método pode ser aplicado e deixado no paciente por mais de duas semanas em alguns casos.
Odorico comenta também a redução dos valores gastos com o novo tipo de abordagem, visto que não é necessária a troca diária. “Como você não tem que fazer esse procedimento diário, os custos para o sistema de saúde caem consideravelmente”, complementa o coordenador da pesquisa.
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O estudo
As pesquisas realizadas em laboratório identificaram a possibilidade de utilizar a pele da tilápia por meio da retirada das células do tecido. Com essa retirada, o material se torna praticamente um colágeno, uma estrutura extremamente resistente e quase impossível de rasgar.
Além das pesquisas relacionadas ao tratamento de queimaduras, a utilização da pele do peixe em outros tipos de procedimentos médicos também está sendo observada. Odorico revela a quantidade de testes realizados para novas intervenções com esse material. “Nós temos 48 aplicações que podem ser utilizadas em medicina humana, em medicina veterinária e em odontologia.”

Veterinários já utilizam a pele da tilápia para tratar lesões de córnea, enquanto médicos estudam formas de utilizar o material em neurocirurgias e no tratamento de lesões de tendão. O colágeno do tecido e sua resistência são os principais atrativos para os testes, vista a semelhança de sua composição clínica com a pele humana, o que garante alta compatibilidade biológica e estrutural na regeneração dos tecidos, além de acelerar o processo de cicatrização e reduzir consideravelmente os riscos de infecção.
Caso de urso na Califórnia amplia repercussão internacional da pesquisa
A pesquisa realizada no Ceará há tempos tem conquistado a atenção de vários países. Os estudos chegaram a pesquisadores e profissionais da saúde de diversas regiões, e muitos entraram em contato com a universidade para entender melhor o trabalho.
Uma das histórias que mais ganhou destaque foi a de uma veterinária na Califórnia, que estava tratando a queimadura de um urso, porém sem sucesso, visto que o animal sempre retirava os curativos por conta da dor. Odorico conta os detalhes desse contato: “Teve um desses incêndios que acontecem periodicamente na Califórnia. A veterinária estava com uma dificuldade enorme com a pata desse urso. Ela preparou a pele de tilápia e teve um sucesso enorme, porque o urso já estava há mais de um mês com essa queimadura. Tudo que ela colocava, o urso tirava.”
O pesquisador também comenta a repercussão das notícias após o acontecimento. Mesmo depois de tratarem mais de 300 pessoas, o que realmente deu maior relevância internacional ao estudo foi a história do urso. “Por exemplo, depois que saiu essa reportagem com o urso, a veterinária publicou isso e saiu em uma dessas emissoras de televisão nos Estados Unidos, e aí isso se disseminou para o mundo inteiro. A gente já tinha tratado mais de 300 pacientes, e apenas um urso fez com que ficasse famoso no mundo”, ressaltou Odorico.
*Sob supervisão de Hildeberto Jr.
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